O RELATO PESSOAL é um gênero textual por meio do qual alguém conta fatos de sua vida – experiências recentes ou remotas – quase sempre a partir de uma perspectiva reflexiva. 

Em geral, a intencionalidade desse tipo de texto é a de registrar, como dito antes, as experiências das pessoas, de modo que elas sirvam de fonte de consulta, ou, até mesmo, de aprendizado para quem as lê. Pode ser feito por outros meios que não o verbal (texto escrito), tais como fotografias, vídeos, podcasts, desenhos, e até mesmo, pinturas. 

Em algumas ocasiões como em palestras, realiza-se oralmente, pois, nesse caso, tem como público-alvo os ouvintes. Assim, pode ser gravado (em áudio e vídeo), e posteriormente, transcrito e publicado em jornais, revistas, sites, livros. Alguns relatos, dada a importância deles, tornam-se documentos históricos, já que constituem testemunhos de uma realidade que, talvez, não tenha sido registrada por escrito. 

CARACTERÍSTICAS 

O relato, em geral, deve ser redigido em 1ª. pessoa (do singular ou do plural). Apresenta tempo e espaço bem definidos, nos quais o narrador torna-se o protagonista dos eventos relatados. Pode ser mais intimista ou mais descritivo, a depender da intencionalidade, ou seja, é preciso saber qual a relação que se quer estabelecer entre emissor e receptor. 

Para a escolha da linguagem, formal ou informal, deve-se seguir a mesma premissa, e outros termos, é necessário, primeiramente, delimitar o público-alvo (receptor) para quem se destina o relato. 

Reforça-se que a função comunicativa do relato é a de construir subjetividade, por isso, diz-se que se trata de um gênero cuja função é a de despertar emoções no leitor, a partir dos sentimentos expressos pelo narrador. 

ESTRUTURA

Dadas as características gerais, o relato pode ser incluído no grupo dos narrativos – isto posto, ele apresentará a seguinte estrutura geral: enredo, narrador, personagens, tempo e espaço. A título de curiosidade: apenas alguns livros didáticos dão, ainda, para essa estrutura, os termos: título, contexto, desenvolvimento e desfecho. 

A seguir, um exemplo de RELATO PESSOAL:

O dia em que o mar invadiu o vazio que havia em mim

Eu já procurava por um estágio que envolvesse os meus estudos da faculdade há mais de um ano. Queria a qualquer custo sair do emprego que mantinha como manicure, um serviço que, à época, com a pouca vivência que ainda me cabia, considerava aquém das minhas habilidades e competências. Digno, mas muito longo do que eu queria para a minha vida. Me inscrevi em agências de estágio, enviava currículo a torto e direito. Até participava de entrevistas e dinâmicas de grupo para as quais era chamada, mas era regra: não conseguia nada. Eram negativas atrás de negativas e, quando muito, um agradecimento institucional em forma de telegrama (naquela época, sou analógica, receber telegrama era algo muito chique). 

Vivia em um estado de infelicidade quase permanente, e de forma paradoxal, nutria um tiquinho de esperança, que embora estivesse se esvaindo, me mantinha em pé. Nas horas vagas, entre um atendimento e outro, uma leitura e outra, desejava encontrar um trabalho que envolvesse a escrita, de alguma forma. Mas, a realidade massacrava: desde o primeiro dia de aula nas Letras, sabia que iria parar em uma sala de aula, coisa que não queria, por razões bastante óbvias para quem vive, especialmente, no Brasil. 

Professor não tem valor, ganha pouco, não tem plano de carreira, era o que eu ouvia de todos quando contava sobre o curso na faculdade. E tenho que confessar: todas essas máximas também ecoavam no meu interior. Ainda que tenha vergonha disso hoje, não posso apagar o que estava lá, dentro de mim. 

O que queria mesmo era escrever, ser jornalista, uma grande escritora (de algum modo, soava melhor, não é mesmo?), trabalhar em uma grande redação, ter meu nome estampado em matérias de jornais e revistas (a internet ainda estava começando e não era popularizada como agora) como aquelas que lia diariamente, era o que queria desde de que aprendi a ler e a escrever. Acontece que o sonho ficava cada vez mais distante, já que não tinha nenhuma experiência em qualquer área que não fosse a da mesinha da manicure. E, de onde vim, já era um grande feito ter uma profissão e não seguir a jornada de dona de casa, filhos (na maioria das vezes, um de cada pai), ou coisa pior: cair no mundo da marginalidade e ter um fim trágico antes de fazer o mínimo do que se espera de uma mulher em vida. 

Foi, pois, que um dia, vendo a seção de anúncios do jornal (sim, era dessa forma que procurávamos trabalho!), vi que uma escola contratava professores. Ah, qual o problema de mais um não, afinal? Ficava perto de onde trabalhava, dava para ir a pé, e decidi ir naquela tarde mesmo, entre uma cliente e outra. Fechei a agenda por duas horas, e no impulso, fui sem dar muitas satisfações.

Quando cheguei lá, tinha fila de gente, quase todos com aspecto de uma sofrência que me trouxe à realidade. O que eu estou fazendo aqui, meu Deus? Na sala de espera, me sentia uma idiota completa. Poderia ter ficado no salão e atendido mais alguém. O que vim fazer aqui? 

Uma hora de espera, todos tinham entrado e saído de uma uma pequena sala que, presumi, servia para as entrevistas. Foi pois que uma senhorinha despontou de lá (bem inha mesmo), olhou-me e perguntou o que uma aluna fazia alí naquele horário. Respondi meio constrangida que tinha ido para a entrevista e não era aluna. Ela me olhou com a desconfiança típica do alto de seus muitos anos (soube mais tarde que eram muitos mesmo), e pediu então que eu entrasse. Segui sua orientação, e me sentei onde ela indicou com o olhar por baixo dos óculos. Entreguei-lhe o currículo, que ela lia como quem passa os olhos por um documento forjado. “Você tem quantos anos?” “Dezenove”. “Parece que tem quatorze”. Não tem experiência, nunca deu aula, o que faz aqui? Preciso de um professor de Língua Portuguesa para o Ensino Médio, não posso te colocar numa sala com adolescentes de 16, 17 anos. Você tem quase a idade deles, eles vão te engolir! Você tem cara de criança!

Lembro-me muito bem o que se seguiu: levantei, insolente, dirigi-me até a porta e disse que o eu fazia ali: buscava uma oportunidade, qualquer que fosse, para tentar mudar a minha própria vida, já que era a única coisa que estava ao meu alcance. Buscar, persistir, mesmo com todos dizendo o contrário.

Ela tirou os óculos, olhou-me profundamente nos meus olhos, e simplesmente disse: boa tarde e virou as costas.

Alguns dias se passaram e recebi uma ligação da escola. Era a velhinha, com a mesma entonação usada na entrevista, avisou de cara: gostei muito de você, te achei insolente, e acho que eles vão te engolir. Mas venha, traga teus documentos, vamos fazer uma tentativa.

Para mim, aquilo foi como olhar para o céu azul de outono. Amo céu azul de outono. Um acalento, mesmo que brando, de um eterno cinza de inverno. Pagava pouco,uma merreca, bem distante do que ganhava naquela época com cada mão ou pé esmaltados. 

Seriam poucas aulas, à noite. Tive de mudar toda a dinâmica da rotina: o curso foi do noturno para o matutino; e o horário de trabalho no salão seria conforme fosse possível. O chefe não ficou feliz, mas não me importei. Precisava seguir. A vida é cíclica, e sempre soube disso, mesmo nos momentos mais delicados e difíceis de digerir. Quando contava a novidade, ouvia repetidamente todas as máximas: Aula? Vai morrer de fome! Confesso que fiquei com medo. Mas fui com a cara e a coragem. Se não gostasse, continuaria tentando. Organizei tudo, e fui.

No primeiro dia fui recebida pela equipe com olhares de dúvida, peguei o material e segui para a famigerada sala de aula. Um aluno à porta, de quem me lembro até hoje, me recebeu bem engraçadinho, disse, ao me ver que eu poderia sentar-me ao lado dele, pois havia um lugar vago ali. O danadinho me paquerou na cara dura. Respondi que ficaria melhor lá na frente. Surpreso, entendeu que eu era a professora. Saiu correndo para contar a “novidade”. A sala foi enchendo, eles foram entrando e me olhando com curiosidade, mas com muita desconfiança. Apresentei-me, iniciei a aula, com as borboletas no estômago quase me levando a um desastre ali mesmo. Tudo se seguiu sem sobressaltos. Passaram-se as primeiras aulas do turno, e no intervalo, no corredor, os comentários eram os mesmos: que daora, ela é muito legal e sabe explicar! Os mais atrevidos diziam, ainda é bonita rsrsrs.

Não tenho outra declaração para aquele momento: foi como se o mar inteiro tivesse invadido o vazio que existia em mim e me trazido um propósito até então totalmente desconhecido. Eu amaria a sala de aula, com um ardor que nenhum julgamento e preconceitos seriam capazes de tirar de mim. Assim, iniciou-se uma nova trajetória que me traria muita luz, e também inúmeros dissabores.